Músicos em Baterias Universitárias e Escolas de Samba.

Músicos em Baterias Universitárias e Escolas de Samba.

Neste texto trago para vocês um resumo do bate-papo que tive com dois nomes das baterias universitárias, Victor Bertoni (apelidado e conhecido por músicos e ritmistas como Cego) e Gabriel Sarmento, que contam sua respectivas trajetórias na música, escolha de instrumentos no par ou impar, dificuldades da carreira, e a evolução das baterias universitárias (BU), com direito a artigo publicado pelos dois na revista da ABEM (Associação Brasileiras de Educação Musical).



Trajetória:

Gabriel Sarmento é um músico de Ribeirão Preto, interior de SP, que na adolescência decidiu junto aos amigos, aprender a música, e estudou guitarra, por meio de CD's, revistas de banca e também tirando música de ouvido. Aos poucos decidiu se dedicar cada vez mais aos estudos musicais, procurando escolas cada vez melhores, até conhecer o curso da UFSCar aos 18 anos, no ano seguinte, em 2015 ingressou em Música. Já Victor Bertoni (Cego) decidiu em uma disputa de par ou impar com o irmão quem iria tocar bateria ou baixo na família, na qual, para a nossa sorte o Cego ficou com a bateria. Nascido em São Paulo, logo no começo dos estudos musicais teve que se mudar para a cidade de Limeira, no interior do estado, depois de uma breve pausa por conta de mudanças na sua vida pessoal, voltou a estudar bateria, com muita influência do Rock, estilo que ele conta que foi um dos fatores presentes no seu estilo pessoal e musical. Entrou na banda Laranja Oliva, a qual toca até hoje (e vocês podem encontrar o link das redes sociais da banda no final do texto) com seu irmão. Os feedbacks positivos de amigos e de quem os escutavam, foram importantes para continuar na carreira com a banda.


O Cego relata que ao ingressar na universidade, escolheu cursas a área engenharia da UFSCar em 2010, porém nesse tempo conheceu a bateria da UFSCar e só foi ingressar no curso de Música em 2015, mas ainda conta: "A bateria era muitas vezes a minha prioridade, a banda também cresceu, fizemos turnê fora do Brasil, para a Bolívia e eu não prestava atenção que minha prioridade era a música, fui deixando a graduação de lado... em 2013 eu já estava insatisfeito com o curso de engenharia". O tempo dedicado a bateria consistia em muito estudo, descobertas, já que era um cenário novo para diversas pessoas e inclusive para ele, então teve que aprender ao longo desses 10 anos, desde como afinar os instrumentos até levadas e criação musical dentro do cenário de BU.




Amizade na BU (bateria universitária), experiência, Batuque Interior:

Os dois se conheceram quando ingressaram no curso de educação musical em 2015, Cego já estava na universidade e com 5 anos de experiência na bateria, Sarmento demonstrou interesse para participar do projeto, o que logo criou uma amizade dos dois. O Cego declara que sempre se interessou pelo ensino de música e que se libertou, se aceitou ao escolher o curso de licenciatura em música, sentiu também que a área era promissora e que ele queria trabalhar com aquilo: "se eu levar a sério, vai dar certo". O Sarmento completou, dizendo: "o Cego me apresentou a bateria, ai escolhi a caixa e foi o meu maior contato com a percussão desde então, além disso foi lá que eu fiz a maior parte das minha amizades, a partir dai quis desenvolver o projeto da bateria e também levar o nome da UFSCar"


A ideia de criar o Batuque Interior, que partiu de convites recebidos pelo Cego: "Uma bateria de Limeira, de amigos, me chamou para um workshop. Fui sozinho, montei um plano, falei muito sobre criação, BU tem dificuldade de criar, mas eu sempre criei, fui incentivado a criar desde criança e também sempre toquei em bandas autorais. Mas logo depois do primeiro workshop, na mesma semana me chamaram pra outro, em outra bateria" e então ele percebe que pode criar algo maior do que a imagem dele, algo que esteja associado com um projeto de bateria, e convida amigos que ele cita pessoas como Tavinho (Otávio), Pato (Fernando), e Sales (Rafael), que desenvolvem um projeto com o nome do Batuque Interior, visando facilitar o acesso ao ensino de música em baterias universitárias "eu levei 10 anos pra aprender o que sei hoje, mas as pessoas podem aprender em 1 ou 2 anos se tiverem um plano de ensino". O Sarmento entra depois de 2 anos de projeto: "Com certeza aceitei, os demais já estavam no projeto e eu topei na hora". O que me falaram é que seria algo natural que ele entrasse no grupo, já que sempre se mostrou dedicado à bateria, mas ainda faltavam algumas experiências, como liderar um naipe, participar de mais torneios, porém sempre foi esperado que o Sarmento fizesse parte do Batuque Interior um dia.




Ensino de música e vivências:

Por ambos estarem cursando licenciatura em música, muito do que era debatido nas disciplinas dentro da graduação pôde ser aproveitado para ensinar música na Bateria. Eles relatam que dentro das aulas, enxergavam atividades que poderiam ser adaptadas tanto para a Bateria da UFSCar, quanto para workshop: "As vezes na aula, a gente via uma atividade e pensava junto, ou já falava um com o outro que íamos utilizar e adaptar aquilo para a bateria".


Estamos acostumados com o ensino formal de música, nós, músicos do blog ou leitores, muitas vezes buscamos estudar por livros, métodos, seguir escolas, mas no samba, em bateria ou BU o caminho é diferente, é uma aprendizagem informal, em que não se existem métodos formais de ensino dentro de escolas de samba ou em baterias universitárias, no caso da segunda, é um ambiente muito diversos, com estudantes de várias áreas da universidade e muitos casos de pessoas que nunca tiveram contato com a música. Os dois fazem esse relato dentro do artigo que foi publicado na ABEM: "A batucada universitária: um breve relato sobre as baterias universitárias e vivências pedagógico-musicais na Bateria UFSCar", cujo o link também está no final da página, para leitura completa. Nesse artigo, a educação não-formal é exemplificada e mostrada como funciona, além de uma interessante relação de horizontalidade, a qual o Sarmento disse para mim: "Sempre quis que fosse algo horizontal, eu chego e falo que estou disposto a aprender com novas baterias, assim como eu vou ensinar, eles têm algo a me ensinar sempre também", o Cego complementa, falando da importância de um instrumentista de BU se considerar também um músico: "Tem gente que chega e me fala que não é músico, ai eu pergunto pra pessoa o que ela toca na BU da faculdade dela, a pessoa me responde qualquer instrumento, e então eu falo que ela é instrumentista sim, se ela toca um instrumento, essa pessoa é um músico como qualquer outro".



Preconceito e evolução das baterias:

Isso me trouxe um questionamento, que acaba sendo inevitável, em relação ao preconceito em que ambos podem ter sofrido ao longo da carreira, eles dizem que existe sim, e muitas vezes dentro da universidade, dentro do curso ou dentro de ambientes musicais em que vão tocar, mas atualmente o reconhecimento do trabalho de bateria é muito maior do que antigamente. Um dos motivos que eles relatam é a evolução dos campeonatos e torneios. Os dois concordam em que o torneio Balatucada é o maior do país e o Cego me conta: "Em 2010, meu primeiro campeonato, ficamos em penúltimo no torneio, e em 2016 fomos campeões, a Bateria UFSCar cresceu", ambos também falam que a criatividade se tornou um quesito antes não presente na avaliação dos jurados, o que torna diferente a forma de ser avaliada entre ser ou não certo, mas sim em inovar e agradar ou não agradar uma banca de jurados: "O critério de criação mudou muito o que as baterias fazem, agora não é só seguir regras, você tem que inovar, tem que fazer algo sempre novo, adaptar de outros estilos, e os jurados vão analisar se gostaram ou não, não é uma avaliação binária de certo ou errado". Sarmento conta que esses campeonatos o deram muitos contatos e amizades, que fizeram com que eles desfilassem em escolas de Samba do Carnaval de SP: "Lá é diferente, é muito tempo tocando, outra técnica, outro estilo de tocar, o samba da escola é algo de tradição", enquanto o Cego complementa: "A criação foi quesito que surgiu ano passado em São Paulo e só agora tá sendo avaliado isso, existe tradição nesse samba, que é diferente do universo de BU, não dá pra comparar, mas se eu fizesse isso, falaria que a BU é um filho da Escola de Samba, que mudou um pouco o seu caminho". O que vale ressaltar é que em baterias existem outras técnicas de se tocar percussão, outro jeito de segurar a baqueta, (deixando claro que não existe certo ou errado, e sim, o diferente, que é o necessário para cada estilo) em que se é ensinado de maneira visual desde criança, e que para aguentar horas de desfile, tocando em um ritmo acelerado e constante, não é viável que se segure uma baqueta como é aprendido nos métodos tradicionais de percussão, e então os dois comentam juntos: "Parece mais fácil, dá mais resistência e diminui as chances de machucar a mão... tem que ser tocado como as crianças aprendem na escola de samba, segurando a baqueta com outra pegada... tem um relato de percussionista que vai conhecer o ensaio da escola de samba e tenta tocar com a pegada formal da baqueta, e uma criança fala 'tá errado tio, é assim ó" e mostra como ela segura a baqueta...o ângulo é diferente, os dedos, a força, tudo." Vale ressaltar, que a criança acha que a pessoa está errada, mas é só a maneira como ela aprender, e que para aquele estilo, é o jeito mais viável.


Em relação ainda ao preconceito, é dito o seguinte pelo Cego: "O preconceito é o que derruba um estilo musical, você pode incorporar um gênero novo ao seu som, nas BUs a gente coloca rock, samba, reggae dentro das músicas, porque naquele cenário é permitido, quando alguém por exemplo fala 'o rock é melhor' ou sente que o gênero musical é superior, é isso que faz ele morrer aos poucos, só o nicho vai escutar, só o seu público vai estar acompanhando", ele destaca que um dos motivos da banda Laranja Oliva dar certo é a diversidade: "Cada um sofreu uma influência, meu pai ouviu diferentes músicas e eu escutava com ele, e assim aconteceu com cada integrante da banda, a gente incorporou essas influências e o rock que a gente toca, não é o rock tradicional, tem várias influências por trás, mas a gente se permitiu incorporar isso no som do grupo." E quando questionado, Sarmento que atuou grande tempo no mercado de música sertaneja, me fala: "Não sofri um preconceito de outros nichos, mas cheguei num momento em que o sertanejo estava bombando, era a minha maior renda em shows, e a grana é maior, então as pessoas não vêem a sua música como algo ruim, o sertanejo quase domina o mercado hoje."


Por fim, os textos que publico com o tema de "carreira musical" aqui no blog tem o foco de unir a classe artística, e mostrar visibilidade para outros gêneros e trabalhos, que fogem do escopo do nosso público e que aumente o reconhecimento de todos que passarem por aqui. O ensino não formal que é feito nesse cenário, ainda é pouco conhecido e pouco valorizado no meio musical/educacional, porém, hoje enxergo como um dos grandes projetos de extensão para os universitários, é uma forma de inclusão, importante na permanência estudantil e além de tudo, está dentro do ensino de música. Eles me disseram por último que a bateria é um projeto de música para toda a comunidade acadêmica, com instrumentos, músicos e que a educação musical têm que participar disso, é uma oportunidade única para eles e uma possibilidade de colocar em prática tudo que estudaram.


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Abaixo, segue os links das redes sociais dos projetos, Spotify da banda Laranja Oliva e artigo da ABEM:

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- Instagram: @batuqueinterior

- Clique aqui para ouvir o Spotify da Laranja Oliva

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